Qual é o seu problema?

A pergunta correta é “qual é a sua doença?”. É isso que muita gente que tomou a vacina (no grupo de comorbidades) contra o coronavírus tem escutado. “Ah, olha, só! Você nem parece doente!” – dizem alguns, e eu não sei exatamente se isso é um elogio, transbordamento da inveja – pela imunização alheia – ou a mais pura desconfiança de que o vacinado deu o golpe para receber a primeira dose contra a covid-19.

Veja bem, caro fiscal dos males alheios, minha pele não é tão descorada e o “branco dos meus olhos” muito amarelos, mas eu tenho a anemia do Mediterrâneo, apesar de nunca ter ido à Europa nessa existência. Oficialmente o nome da doença é talassemia. Meu pai tinha beta talassemia*, herdei dele. E, que coincidência, minha mãe também tem essa anemia, mas na forma mais leve.

Pois não é que essa doença faz parte da lista de comorbidades descritas no Plano Nacional de Imunização? Eu tenho direito a ser vacinada contra o corona. E fui!

Mas não foi pela doença hereditária que recebi a primeira dose da Pfizer. Agora você pode até duvidar da minha condição de doente crônica. Onde já se viu? Uma mulher saudável dizer que toma remédio diariamente para controlar a hipertensão? Todo santo dia, faça chuva ou faça sol preciso me medicar para continuar vivendo.

Entendo que você, que se indigna ao ver alguém com doença crônica ser vacinado, fique frustrado por não ter uma doencinha para entrar na fila da agulhada. Sei que tem criminoso furando fila, fraudando laudos e tudo que gente canalha pode fazer para ter o que não lhe pertence. Mas você não acha um pouco demais ser fiscal de comorbidades?

*Clique aqui, se quiser saber sobre a talassemia

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