Eu tinha uns 16 anos e procurava emprego com uma amiga, de 18. Naquela manhã a acompanhei até um comércio que existia na rua Brasília, em Porto Velho. O nome do lugar nunca esqueci, Paulista. Um homem branco, alto e estúpido falou, aos gritos, com a minha amiga que não contratava gente da cidade, porque eram pessoas preguiçosas e faltavam ao trabalho em dia de chuva.
Lembro-me de ter ficado paralisada, assustada. Ela arregalou os olhos diante daquela violência, torceu as mãos (gestos que sempre fazia quando estava nervosa), baixou os olhos e sussurrou um: “tá bem”. Fomos embora em silêncio, choro contido. Nas duas ou três quadras até o ponto de ônibus, na 7 de Setembro, nada falamos.
“Por que aquele homem disse que somos preguiçosas? Ele não nos conhece!”, pensava. Lembrei de meus pais que saiam para trabalhar mesmo que chovesse canivetes. “Faltar trabalho apenas em caso de doença ou de morte”, meu pai dizia.
Somente muito mais tarde compreendi que fomos vítimas de xenofobia na nossa própria terra. O homem saiu de São Paulo (presumo pelo nome do comércio dele) e foi para Rondônia acreditando ser o mais probo dos trabalhadores/empreendedores do país. Ele o inteligente. Nós, os inferiores.
Esse fato se passou há mais de 30 anos e ressurgiu vívido na minha memória semana passada após o caso dos trabalhadores baianos resgatados nas vinícolas Salton, Aurora e cooperativa Garibaldi, em Bento Gonçalves, na serra gaúcha. Quando ouvi um vereador de Caxias do Sul, também na região, dizer que “gente lá de cima” não deveria ser contratada, que baiano só sabe “viver na praia tocando tambor”, a dor de tanto tempo e a indignação com o hoje me invadiram.
Incontáveis vezes respondi que “Não sou ‘lá de cima’, sou de Rondônia”. Outras tantas me calei diante de comentários preconceituosos com o meu sotaque, minhas expressões regionais, minha cultura. Após algum tempo depois dos primeiros confrontos com a ignorância alheia passei a reagir.
Em 2019, estava em uma pauta e a assessora de um entrevistado perguntou há quanto tempo eu morava na cidade. Respondi que havia seis meses. Ela, sem disfarçar o espanto e o preconceito, comentou que uma amiga dela formada na UFSC estava há quase um ano desempregada e nada conseguia, e eu recém-chegada lá de cima já estava empregada no maior grupo de comunicação de Santa Catarina. Para disfarçar o comentário infeliz, me desejou sorte.
