Há algum tempo eu vivo um desassossego, um desentendimento constante com minhas memórias. Quando comecei a ler Torto Arado parecia que eu estava abrindo um álbum de família, que mesmo não sendo a minha de hoje, era a que já tive em algum passado. E partes dela permanecem em mim. Seja na minha pele e nos meu lábios, mas principalmente no sentir.
Avancei cada página em busca de entender um pouco mais da minha história. Parece meio louco eu dizer isso, afinal, o romance não é sobre mim. E foi aqui (também) que o Itamar Vieira Junior, autor da obra, conquistou a todos que já se permitiram sentir, ou entender, a própria origem que tem sangue de açoitado e de açoitador, para usar as palavras de Chico Buarque no discurso do Prêmio Camões.
Apesar das dores das personagens, que também se tornaram minhas, eu senti muita alegria, uma verdadeira satisfação ao concluir a leitura e uma certeza: Itamar escreveu o que eu precisava e buscava. E eu queria mais!
Providenciei a compra antecipada de Salvar o Fogo e, como uma irmã que espera a visita da outra, aguardei com ansiedade para saber mais da nossa história.

Está ali o sufocamento das nossas raízes, o que fazem da gente e o que fazemos com o que nos impõem. Os dois romances se passam na Bahia, o primeiro na Chapada e o outro no recôncavo. Bem longe do rio Madeira, de Porto Velho e da Amazônia onde nasci. Mas era como se fosse lá. Porque o Brasil, apesar de sua imensidão territorial, é muito democrático na indiferença, na desigualdade, no preconceito e no racismo.
O fato de o autor ter feito das mulheres as protagonistas dá ainda mais força à história. Perceber num romance contemporâneo a preocupação do escritor em dizer “eu sei o que vocês passam” me emocionou diversas vezes (como agora, só em relembrar).
Torto Arado e Salvar o Fogo são para mim uma espécie de portal onde encontrei muito do que havia esquecido, escondido, desprezado até. Sou muitíssimo grata ao Itamar Vieira Junior por ter me mostrado o caminho que eu não conseguia encontrar.
(Torto Arado, 2022, Editora Todavia | Salvar o Fogo, 2023, Editora Todavia)


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